• Igor P. Matela

A crise do capitalismo e sua manifestação financeira em Andre Gorz

Atualizado: 25 de out. de 2021

Para Andre Gorz (2005), o capitalismo contemporâneo passa por uma transformação fundamental: o conhecimento, não mais o trabalho, torna-se a principal força produtiva da sociedade. Isso é o que define o “capitalismo cognitivo”. Em função desse fato, as mercadorias seriam principalmente resultado do “conhecimento cristalizado”, ao invés de produto do “trabalho cristalizado”. O conteúdo de conhecimento em uma mercadoria seria a medida de seu valor.


Surge então uma dificuldade básica: como medir a quantidade de conhecimento? Gorz afirma que isto seria impossível. O conhecimento não pode ser reduzido a unidades básicas, já que não tem uma medida comum (como o tempo de trabalho). Nas palavras do autor:


Ele recobre e designa uma grande diversidade de capacidades heterogêneas, ou seja, sem medida comum, entre as quais o julgamento, a intuição, o senso estético, o nível de formação e de informação, a faculdade de aprender e de se adaptar a situações imprevistas; capacidades elas mesmas operadas por atividades heterogêneas que vão do cálculo matemático à retórica e a arte de convencer o interlocutor; da pesquisa técnico-científica a invenção de normas estéticas. (p. 29).

O conceito de valor entra em crise. Se a nova fonte do valor – o conhecimento – é imensurável, o próprio valor em seu sentido econômico deixa de fazer sentido, uma vez que não pode funcionar como equivalente para a troca universal de mercadorias.


Esta questão é resolvida nos marcos do capitalismo por meio da apropriação privada do conhecimento, o controle monopólico de seu acesso e a cobrança pelo direito de uso. O conhecimento livre, compartilhado, bem comum da humanidade não serve ao capital. Por sua vez, o conhecimento formalizado, instrumental, privatizado é passível de gerar uma renda de monopólio aos que dele se assenhoram.


No capitalismo cognitivo, portanto, o conhecimento substitui consideravelmente o trabalho material. Ele economiza trabalho em proporções gigantescas. As mercadorias precisam de cada vez menos trabalho e cada vez mais de conhecimentos para serem produzidas (acumulados em máquinas, algoritmos, sistemas produtivos, softwares etc.). O trabalho vivo, criador de valor, perde importância na produção da riqueza social.


A dimensão imaterial, simbólica, dos produtos torna-se mais importante que sua realidade material. A marca – construída principalmente através dos esforços da publicidade – passa a ser o principal ativo das corporações capitalistas. O custo de produção de um tênis “Nike”, por exemplo, representa apenas uma parcela ínfima do seu preço. O que se vende é a marca.


Dessa forma, Gorz interpreta a financeirização como o descolamento do valor enquanto tempo de trabalho socialmente necessário frente ao “valor” enquanto fruto do conhecimento. O desenvolvimento desse último, base dos “ativos intangíveis”, é o novo centro das estratégias empresariais (pois a criação de elementos únicos e distintivos favorece a emergência de uma economia de monopólios). Desvinculada do trabalho concreto, a valorização financeira atual é ilimitada. Conforme o autor:


A imaterialidade do capital intelectual é a que está mais apta a funcionar como promessa de mercados futuros ilimitados para mercadorias de um valor imensurável e, consequentemente, como promessa de mais-valias ilimitadas na Bolsa. Na condição, é claro, de que esse capital seja uma propriedade protegida, e de que ele ocupe uma posição monopolista. A separação do capital imaterial e do capital material se situa assim num contexto em que a massa de capitais fictícios já se descolou da economia real e, sobre o mercado de derivados, pôs-se a fazer dinheiro comprando e vendendo dinheiro fictício centenas de vezes por dia. A ficção ultrapassa a realidade e se passa por mais real do que o real, até o dia em que, imprevisível e inevitável, a bolha estoura (p. 42).


O estouro das bolhas, a volatilidade dos mercados financeiros, a especulação irrestrita, demonstrariam, portanto, a dificuldade intrínseca do capital intangível, derivado do conhecimento, funcionar como capital. Por isso, o capitalismo cognitivo é a crise do capitalismo propriamente dito.


A sociedade da mercadoria encontra-se, então, numa encruzilhada histórica: cada vez menos trabalho é utilizado e, dessa maneira, cada vez menos dinheiro entra em circulação. A solução tem passado pela criação de dinheiros “fictícios”, de crédito, que não tem base no valor. A crise do capitalismo nos encaminha para uma economia baseada no endividamento crescente e na instabilidade crônica, mas que, por outro lado, abre possibilidades para imaginarmos outras formas de organização social.


Referências

GORZ, A. O imaterial: conhecimento, valor e capital. São Paulo: Annablume, 2005.


Como citar:

MATELA, I. A crise do capitalismo e sua manifestação financeira em Andre Gorz. GT Metrópole, Estado e Capital (Blog), Observatório das Metrópoles, 13 out. 2021.