• Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro

As Metrópoles, Inovação e Conhecimento

Atualizado: 25 de out. de 2021



A tese segundo a qual a busca pela inovação pelo capital gera ou reforça o desenvolvimento desigual do espaço parece-me bem aceitável considerando que a sua geração, circulação e incitação dependem de condições específicas de produção relacionadas com a existência de recursos relacionais - como diria Pierre Veltz (2005) - fundados em características diferenciais do território como espaço social.


A tese é a conclusão do texto da Regina Tunnes (2020), no qual é bem argumentada e submetida a uma análise empírica para o caso do Brasil que evidencia a concentração das empresas inovadoras na Região Sudeste (50%), sendo que 1/3 delas estão no estado de São Paulo. Por outro lado, são nas regiões metropolitanas do Sudeste e algumas do Nordeste (Salvador, Recife e Fortaleza ) e Brasília onde as empresas consideradas inovadoras estão quase que exclusivamente localizadas.


Tal concentração é a consequência da concentração territorial das condições de produção que importam para as empresas inovadoras relacionadas com o ambiente sócio-produtivo que permitem a geração da inovação como um processo social. Com efeito, mobilizando uma literatura pertinente, Regina Tunnes argumenta que, embora submetida ao capital, a inovação depende da existência de redes socioprodutivas que permitiriam criar um ambiente de aprendizagem coletiva, já que, no atual estágio do capitalismo, o conhecimento seria a força produtiva principal, hipótese em torno da qual convergem vários autores.


Está análise tem afinidade com a reflexão que desenvolve André Gorz na mesma direção, mas propondo a distinção entre conhecimento e saber. Com efeito, segundo este autor “ A força produtiva principal, o conhecimento, é um produto que em grande parte resulta de uma atividade coletiva não remunerada, de uma “produção desse“ ou de uma produção de subjetividade“. O conhecimento é em grande parte “inteligência geral” , cultura comum, saber vivo e vivido (p. 36).


Mas, para André Gorz, conhecimento é o saber formalizado, codificado e objeto de profissionalização. A nova força produtiva que estaria constituindo um capitalismo cognitivo é também - e fundamentalmente - materializado por saberes como “capacidade prática, uma competência que não implica necessariamente conhecimentos formalizáveis, codificáveis.” Ou , “por um resíduo, mais ou menos importante” que escapa à formalização. O saber está no trabalhador, portanto, mergulhado no meio social no qual ele vive e sobrevive.


Por outro lado, a mobilização do conhecimento e o do saber pelo capital depende de operações que estão fora das relações mercantis. São dimensões imateriais da força produtiva necessária ao capitalismo cognitivo que o capital no que consegue ter acesso apenas pela compra.


Estes aspectos tornam relevantes para o capital as características do meio social e relações sociais nas quais trabalhador imaterial vive e se reproduz como condição de produção e mesmo de valorização, o que explicaria a permanência das Metrópoles como espaço preferencial de localização das empresas que buscam a inovação, reproduzindo o padrão desigual da expansão espacial do capital.


Referências:

GORZ, A. O imaterial. Conhecimento, valor e capital. São Paulo: Ana Blumen, 2005.


TUNNES, R. Geografia e inovação: questões teórico-metrológicos a partir da Economia Poltica e da Geografia Econômica. Geografia da inovação. Território, redes e finanças. Rio de Janeiro: Consequência Editora, 2020.


VELTZ, P. Villes, territoires et mondialisation. Puf, 1996, réédité et actualisé en 2005.



Como citar:

RIBEIRO, L. C. Q.; DINIZ, N. As metrópoles, inovação e conhecimento. GT Metrópole, Estado e Capital (Blog), Observatório das Metrópoles, 5 out. 2021.