• Nelson Diniz

Corrida armamentista e caos sistêmico no século XXI


Pequim busca completar a renovação de suas forças armadas até 2035, tornando-as capazes de rivalizar, ou mesmo vencer, as dos Estados Unidos em 2049, ano do centenário da República Popular da China. É o que informa uma reportagem do periódico El País [1], apenas alguns dias após o Financial Times sugerir que os chineses testaram, em agosto deste ano, um míssil hipersônico com potencial nuclear [2]. Outra reportagem de El País [3] compara os mísseis hipersônicos com os mísseis balísticos intercontinentais, enfatizando que uma das principais diferenças entre eles diz respeito ao potencial de detecção e ao tempo de reação.



Fonte: RODRIGO SILVA / EL PAÍS.

As reportagens acima mencionadas demonstram como tudo isso eleva a “inquietação” e as tensões geopolíticas na Ásia e no Pacífico, que foram palco, recentemente, de exercícios militares envolvendo, de um lado, Rússia e China e, de outro, os Estados Unidos e seus aliados.


A China, em particular, vem aumentando suas capacidades navais, sobretudo em seu mar Meridional, além de ter realizado, nos últimos tempos, uma série de incursões nos espaços aéreos tanto do Japão quanto de Taiwan e de ter reforçado suas posições na fronteira com a Índia. Pode-se aludir, ainda, aos impactos da criação da AUKUS, aliança estratégica estabelecida entre Austrália, Reino Unido e Estados Unidos para atuar na região do Indo-Pacífico [4], assim como às declarações do presidente Xi Jinping sobre a “tarefa histórica de completar a unificação pacífica” de Taiwan com a China continental [5].


Trata-se, portanto, de eventos contemporâneos que sinalizariam o início de uma “corrida armamentista no século XXI”, para utilizar uma expressão cada vez mais difundida no campo jornalístico, mas que também circula nos meios acadêmicos. Eventos ou acontecimentos que podem ser interpretados a partir da matriz de pensamento arrighiana-braudeliana, referência fundamental do nosso trabalho no Grupo de Pesquisa Metrópole, Estado e Capital.


É possível, por exemplo, examiná-los à luz da ideia da bifurcação sistêmica entre os poderes militar, dos Estados Unidos, e econômico, da China e da Ásia oriental. Ideia defendida por Giovanni Arrighi (2008) em seu Adam Smith em Pequim: origens e fundamentos do século XXI. Atualizando argumentos expostos em obras anteriores (ARRIGHI; SILVER, 2001; ARRIGHI, 2003), o autor sustenta que esse tipo de bifurcação, característico da atual fase de expansão do capitalismo, não encontra precedentes na história, podendo se desenvolver em três direções ou conforme três hipóteses, quais sejam:


i) os Estados Unidos e seus aliados utilizariam sua superioridade militar para impor um “pagamento de proteção” aos centros capitalistas da Ásia oriental, abrindo caminho para a existência do primeiro império verdadeiramente global;

ii) se os Estados Unidos não conseguissem estabelecer e agir como o centro desse império, aumentariam as oportunidades para o surgimento de uma “sociedade de mercado mundial” centrada na Ásia oriental e sob liderança chinesa (uma sociedade com maior equilíbrio de poder entre Ocidente e Oriente);

e iii) afastadas essas duas direções ou hipóteses, o capitalismo, como sistema histórico, provavelmente evoluiria para uma situação de caos sistêmico mais ou menos prolongado, isto é, uma situação marcada por grande instabilidade geopolítica e por demanda de ordem não atendida no nível sistêmico.


Para Arrighi (2008), o fracasso militar no Iraque – e talvez seja oportuno incluir, agora, a derrota no Afeganistão – reavivou a “síndrome do Vietnã” e reduziu bastante a probabilidade da emergência do império global estadunidense. Ao mesmo tempo, cresceram as chances de constituição da sociedade de mercado mundial centrada no dinamismo econômico da Ásia oriental. Na verdade, do ponto de vista do autor, quanto mais se tornava evidente o “atoleiro iraquiano”, “mais os Estados Unidos se enredavam na Guerra ao Terror e dependiam de crédito e mercadorias estrangeiras baratas” (p. 214), oriundos sobretudo da China.


Em suma, o fracasso militar estadunidense contribuiu para consolidar a expansão econômica chinesa, que já estava em curso. Daí o delineamento ou restabelecimento de um imaginário ao redor de outra síndrome, a “síndrome da China”, entendida como principal rival dos Estados Unidos. Imaginário cujos fundamentos estavam presentes no discurso acadêmico, militar e político neoconservador ao menos desde o início do século XXI, mas que foram deslocados pela necessidade do “envolvimento construtivo” dos Estados Unidos com a China, em função das dificuldades na Ásia ocidental (Afeganistão-Iraque).


Mas, enfim, diante dos eventos e hipóteses mais recentes, especialmente a da reversão ou diminuição significativa das disparidades, no campo militar, entre os Estados Unidos e a China, as primeiras questões que se colocam são as seguintes: até que ponto ela é capaz de desafiar, de fato, nos curto e médio prazos, a supremacia bélica dos Estados Unidos? De que maneira o simples esforço nesse sentido, mesmo que não venha a prosperar por completo, altera a correlação de forças no sistema mundial?


Para começar a responder essas questões, cumpre destacar que, como observado por uma analista entrevistada na primeira reportagem do El País aqui citada, a China pode estar, em larga medida, “projetando mais poder e confiança do que realmente têm”.


De todo modo, é inegável que está conduzindo uma efetiva ampliação do seu poder militar, almejando ir muito além do seu papel como potência econômica. Isso se expressa, por exemplo, no incremento do seu orçamento de defesa (correspondente, hoje, a US$ 208 bilhões). Ademais, uma vez que os Estados Unidos, apesar do declínio relativo de sua hegemonia, ainda estão em ampla vantagem militar e possuem toda capacidade para reagir nesse campo (seu orçamento de defesa, projetado para o ano fiscal de 2022, é de US$ 715 bilhões [6]), o mais provável é que o século XXI testemunhe, com efeito, a emergência de um caos sistêmico prolongado, com suas repercussões em termos de pressões competitivas, incertezas e conflitos no sistema mundial.


Referências


ARRIGHI, Giovanni. O longo século XX: dinheiro, poder e as origens do nosso tempo. Rio de Janeiro: Contraponto; São Paulo: Editora Unesp, 2003.

______. Adam Smith em Pequim: origens e fundamentos do século XXI. São Paulo: Boitempo, 2008.

ARRIGHI, Giovanni; SILVER, Beverly J. Caos e governabilidade no moderno sistema mundial. Rio de Janeiro: Contraponto; São Paulo: Editora Unesp, 2001.

[1]https://elpais.com/internacional/2021-10-27/china-exhibe-musculo-militar-para-extender-su-influencia-en-el-pacifico.html. [2]https://www.ft.com/content/ba0a3cde-719b-4040-93cb-a486e1f843fb. [3]https://elpais.com/internacional/2021-10-23/la-carrera-por-los-misiles-hipersonicos-agita-el-equilibrio-estrategico-global.html. [4]https://elpais.com/internacional/2021-09-15/ee-uu-reino-unido-y-australia-anuncian-una-alianza-estrategica-contra-china-en-la-region-del-indo-pacifico.html. [5]https://elpais.com/internacional/2021-10-09/xi-jinping-promete-la-reunificacion-completa-con-taiwan.html [6]https://www.cnnbrasil.com.br/business/eua-orcamento-para-defesa-visa-conter-china-e-da-aumento-de-2-7-a-militares/.