• Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro

Expansão Financeira e O Capital Imaterial

Atualizado: 1 de nov. de 2021

Em nossa discussão sobre a expansão financeira do atual ciclo americano de acumulação sistêmica, temos pensado muito a chamada financeirização como expressão da fuga da produção material pelo capital. Mas, como venho comentando, a ideia de expansão financeira do Arrighi deve ser entendida mais largamente que a implícita na noção de financeirização. A meu ver, ela enuncia a busca do capital pela rentabilidade, a mobilidade pela reaquisição do poder de escolha, características perdidas ou minimizadas na fase de expansão material.


Tornar-se capital imaterial realizaria também esta desmaterialização, assim como o capital -dinheiro cuculando nos circuitos das finanças de mercado. Há várias passagens na análise de André Gorz que sugerem nexos entre a finanças e o surgimento do capitalismo cognitiva. Vamos identificar as etapas de constituição destes nexos.


1 - A reestruturação produtiva iniciada nos anos 1970 vai pouco a pouco constituindo massas de capital líquido que passam a ser investidas na radicalização da acumulação flexível. Especialmente pelo surgimento da estratégia da desmaterialização da produção com a produção do que Naomi Klein chamou das Supermarcas.



A autora de ‘Sem logo’, Naomi Klein (2019). O livro revela o processo de traição das promessas centrais da era da informação: opções, interatividade e liberdade crescente.


Trata-se, sem dúvida, de uma estratégia orientada pela liberação do capital, o ao menos do grande capital organizado como empresas multinacionais, da tarefa de realização da produção material como meio de acumulação. No capítulo 9 do livro Sem Logo, Klein reproduz as palavras do presidente da empresa Levi Strauss Américas quando do fechamento de 22 fábricas e a demissão de 13 trabalhadores norte-americanos entre novembro de 1997 e fevereiro de 1999.


“ nosso plano estratégico na América do Norte é focalizar intensamente o gerenciamento de marca, o marketing e o projeto de produto como o meio de atender as necessidades e desejos de roupas informais dos consumidores. Mudar uma parcela significativa de nossa fabricação de mercados americanos e canadenses para terceiros em todo mundo dará a empresa maior flexibilidade para alocar recursos e capital a suas marcas. Esses passos são essenciais se quisermos continuar competitivos” (p. 219)

Segundo Noemi Klein, desmaterialização da produção de valor e a sua terceirização para outras frações do capital passou a ser central no capitalismo americano. Nas palavras da autora:


"De acordo com essa lógica, as corporações não devem gastar seus recursos finitos em fábricas que exige geral manutenção física, em máquina máquinas que sofreram corrosão os funcionários que certamente envelheceram e morreram. Em vez disso, elas devem concentrar seus recursos nos elementos utilizados para construir suas marca; Isto é, patrocínios, embalagens, expansão e publicidade. Elas devem também gastar em sinergias: comprar canais de distribuição e varejo para levar sua marca à pessoas" (p. 220).

2 - O Segundo nexo decorre da especulação na bolsa de valores na segunda metade dos anos 90 com relação aos valores de mercado das empresas que tinham como centro do seu patrimônio o chamado capital imaterial. Ou seja, as marcas.


Citando um trecho do livro de André Gorz:


Em 1999, o capital material da indústria americana não representava mais do que 1/3 de toda capitalização da bolsa de valores.…, O capital e o material, ou “ capital inteligência “ da maior parte das empresas, atingia no mesmo ano uma capitalização na bolsa de cinco a 10 vezes mais elevada do que o seu capital material e financeiro. De modo geral, as firmas tendem a dissociar o capital e o material das formas tradicionais de capital (p. 39). A bolsa de valores vai manifestar muito interesse pelos chamados “ ativos imateriais” ou “ativos intangíveis”.

Aqui a afinidade entre a valorização do capital fictício expresso na bolsa e a valorização do capital imaterial parece bastante forte.


“ Quando, na bolsa, a cotação das sociedades ultrapassa, em 100, o valor estimado de seus ativos tangíveis, a coisa começa surpreender. Capital fixo material não é tudo. Há também o capital imaterial, intangível que é impossível de avaliar e que ademais é a chave do crescimento dos lucros futuros. Separados então o intangível do tangível, faz necessário cortar separadamente na Bolsa. A alta do valor dos intangíveis poderá continuar a se acelerar. Essa cotação não poderá nunca aparecer super avaliada, já que os intangíveis não tenho valor avaliável.

A Nasdag abre a via: todo o mundo se engaja nela. O que vale uma Startup? O que vale a Microsoft? Tudo que se queira. O investimento inicial pouco importa. Pode se reduzir a um ou a dois PCs, o aluguel de um estúdio onde dois amigos levaram duas semanas ou dois trimestres escrevendo um programa de computador que fará a seus usuários ganhar tempo economizar o dinheiro. O que conta são a originalidade, eficácia, a confiabilidade o que conta não é necessariamente o trabalho de invenção, é o que é necessário para vender é a sua invenção antes que outros tem encontrado ou copiado o que você faz. O que conta, em suma, é principalmente transformar a invenção em mercadoria, e Pola do mercado como um produto de marca patenteada (p. 42).

Ou seja, a lógica de precificar os ganhos futuros do dinheiro funcionando como capital fictício se afina fortemente com lógica de precificar no futuro as invenções que estão surgindo hoje, que, em sua essência, têm valores também fictícios.


3- Conclusão


A separação do capital do material e do capital material se situa assim no contexto em que a massa de capitais fictícios já se deslocou da economia real e sobre o mercado de derivados, pôs-se a fazer dinheiro comprando e vendendo o dinheiro fictício centenas de vezes por dia. A ficção ultrapassa a realidade e se passa por mais real do que o real, até o dia em que, imprevisível inevitável, a bolha estoura (p. 42).

Como citar:

RIBEIRO, L. C. Q.; DINIZ, N. Expansão financeira e o capital imaterial. GT Metrópole, Estado e Capital (Blog), Observatório das Metrópoles, 20 out. 2021.