• Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro

Relações algorítmicas e dominância financeira-informacional-digital

Atualizado: 25 de out. de 2021

Com Nelson Diniz


Uma empresa de software demite 150 funcionários. Ao fazê-lo, segue a recomendação de um “algoritmo de eficiência no trabalho”, regido por inteligência artificial, que os julgou “improdutivos” e “pouco comprometidos”. Apesar da discordância de seu diretor-executivo e fundador, não há como reverter a decisão, uma vez que ele é obrigado a acatar o “veredicto da máquina”, em conformidade com os “protocolos internos pactuados com sua assembleia de acionistas”. Essa é a síntese de um caso descrito em reportagem do periódico El País, que o trata não como uma “profecia de mau agouro”, e sim como “o destino que aguarda a maior parte das pessoas empregadas neste agitado primeiro terço do século XXI”.


Diante de exemplos como esse, isto é, que remetem à “vocação disruptiva das empresas modernas”, temos trabalhado com a ideia da dominação financeira-informacional- digital. De um lado, porque a lógica dessas empresas-plataforma, cujo funcionamento se baseia nos desdobramentos mais recentes da revolução tecnocientífica ou mesmo da revolução digital, encontra correspondência no avanço da financeirização, marcada pela busca crescente e simultânea dos principais agentes econômicos por rentabilidade e liquidez. De outro lado, porque isso se expressa nos regimes de propriedade dessas empresas, cuja densidade em informação e tecnologia depende, invariavelmente, dos recursos e investimentos de seus acionistas majoritários, que são os chamados fundos financeiros. Há que considerar, ainda, que essas empresas articulam, em suas operações, os circuitos financeiro e produtivo. É o caso, no Brasil, do Mercado Livre, que possui o Mercado Pago, um mecanismo de pagamento que atua em conexão com outras plataformas e, ao mesmo tempo, é uma plataforma de crédito, embora não seja um banco.



Em ‘Tempos Modernos’ (1936), Charles Chaplin já alertava para os perigos das máquinas no trabalho. Fonte: GETTY IMAGES

Cabe mencionar que essas plataformas encontram suporte fundamental na expansão das novas mídias e redes sociais, vinculadas ao uso generalizado dos smartphones (e congêneres). Tudo isso cumprindo um papel decisivo no que se refere ao advento da servidão e/ou escravidão digital, termos utilizados por autores como Ricardo Antunes para enquadrar as condições de controle e exploração do trabalho via algoritmos e aplicativos.


Por fim, estendendo o argumento e incorporando o debate contemporâneo sobre o conceito ampliado de extrativismo (ou neoextrativismo), conduzido por autores e autoras como Sandro Mezzadra, Brett Neilson e Verónica Gago, nos parece pertinente falar de “operações do capital”. Em consonância com esse debate, pode-se dizer que essas operações se manifestam em múltiplos arranjos possíveis, que se realizam por intermédio de uma diversidade de relações de exploração e espoliação. Relações fundadas, atualmente, sobretudo na capacidade que determinadas empresas adquiriram de extrair e mobilizar, por meio dessas operações, não apenas valor, mas também informação. Daí a ideia não só da dominação financeira-informacional, mas da dominação financeira-informacional-extrativista para designar características e processos fundamentais da atual fase de desenvolvimento do capitalismo.


Como citar:

RIBEIRO, L. C. Q.; DINIZ, N. Relações algorítmicas e dominância financeira, informacional e digital. GT Metrópole, Estado e Capital (Blog), Observatório das Metrópoles, 13 out. 2021.