• Tarcyla Fidalgo

Visão geral dos argumentos de André Gorz sobre “O imaterial”

Atualizado: 25 de out. de 2021

Este pequeno texto pretende fornecer ao leitor uma visão geral dos argumentos de André Gorz no livro “O imaterial: conhecimento, valor e capital”. A tese central é a de que estaríamos diante de um “capitalismo pós-moderno”, centrado na valorização de um capital imaterial. Essa “mutação” do capitalismo implica, por sua vez, em mudanças no trabalho, na ciência e na sociedade, das quais trata o autor nesta obra.


Assim, para o autor, a economia do conhecimento deve ser entendida como “uma forma de capitalismo que procura redefinir suas categorias principais – trabalho, valor e capital – e assim abarcar novos domínios”. Neste sentido, defende que todo trabalho passa a ter um componente de saber de importância crescente, sendo certo, no entanto, que não se trata necessariamente de um saber formal ou formalizável, mas sim de um saber que pode se basear em elementos como experiência, discernimento, capacidade de coordenação, organização e comunicação.


Além disso, defende o autor que o modo como os empregados incorporam esse saber não pode ser nem predeterminado nem ditado, ou seja, não pode ser uma obrigação. A aquisição deste tal saber exige o investimento de si mesmo, aquilo que na linguagem empresarial é chamado de motivação. Nessas condições, o trabalho deixa de ser mensurável em unidades de tempo.


Essa constatação impacta diretamente as relações salariais convencionais, que são desfeitas. Com isso, na visão do autor, os empregados passam a ser obrigados a se tornarem empresas, respondendo pela rentabilidade de seu trabalho. Em suas palavras: “no lugar da exploração entram a auto exploração e a auto comercialização do ´Eu S/A´, que rendem lucros às grandes empresas, que são os clientes do auto empresário.”


Em paralelo, se abre uma nova fronteira de capitalização do conhecimento, a partir da busca pela escassez e apropriação privada do conhecimento para que gere valor mercantil em detrimento de seu potencial de universalização e incremento de utilidade para a sociedade como um todo. No entanto, o autor destaca que há uma dificuldade de manipular o saber como mercadoria (custos de produção de difícil determinação e tempo de trabalho que não serve de parâmetro para o valor mercantil), que é explorada pelo capital no sentido da formação de monopólios de conhecimento aptos a proporcionar rendimento exclusivo.


Neste contexto, cresce a importância de recolocar a pergunta sobre o que é riqueza. Para o autor, a multiplicação de dinheiro não cria riqueza e a pilhagem de bens comuns – como o conhecimento – produz miséria crescente. Assim, defende a necessidade de uma nova economia, contrária à privatização do saber, da produção do conhecimento e do bem comum.


Acompanhando a necessidade de uma nova economia, o autor defende também a importância de uma nova ciência, que não mais esteja a serviço de exercícios de dominação, mas que se proponha à universalização e desenvolvimento de toda a sociedade. Nas palavras do autor: “se a sociedade, graças à redefinição do conceito de riqueza, tem de ser redefinida cultural e economicamente, também o espírito da ciência deve ser redefinido”.


Referências:

GORZ, A. O imaterial: conhecimento, valor e capital. São Paulo: Annablume, 2005.


Como citar:

FIDALGO, T. Visão geral dos argumentos de André Gorz sobre “O imaterial”. GT Metrópole, Estado e Capital (blog), Observatório das Metrópoles, 13 out. 2021.